terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Meu Poema Preferido: Fernando Pessoa

Hora de dormir

Frases de Mário Quintana


DAS UTOPIAS

Se as coisas são inatingíveis... ora!

Não é motivo para não querê-las...

Que tristes os caminhos, se não fora

A presença distante das estrelas!



Mário Quintana

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Quem é ela?

                                  

Quem é ela?


Aquela mulher ali, a magra que me olha no espelho.


Ah, por certo mais uma que sem pedir licença invade a minha vida,


Inconveniente, sem avisar.


Criatura estranha essa, sem bochechas, nem seios fartos...


Cruza as pernas como se outra coisa melhor não tivesse para fazer...


Fica ali invadindo meu olhar, minha vida, meu pensar,


Sequer me permite meditar em paz , nem mesmo me olhar no espelho posso


Ousa mudar a minha já construída imagem,


Resolvida pessoa


Como se assim pudesse...


Ah!!Mas que desaforada essa mulher magra, nariguda, de pescoço comprido...


Nada a ver com a minha história,


De pernas grossas e quadris largos...


Quem é essa?


Sorri para mim com grandes olhos, que se surpreendem


Com um mundo que nem bem conhecia


Por certo me pedirá ajuda, gritará por socorro,


Quando perceber que o mundo também é postiço


Como os cílios sobre seus olhos

Escrever para não enlouquecer



Mais um dia aqui ao teu lado. Estou na cama ao lado, ao lado do teu leito de morte e resolvi escrever, novidade nenhuma! Faço isso sempre e principalmente quando as coisas não vão bem.

Nossa mãe estava o tempo todo agarrada na tua mão, cabisbaixa. Agora foi lá fora, talvez fumar um cigarro, talvez fazer nada, não sei...Porque será que as mães ficam de cabeça baixa nessas horas? prostradas? estarrecidas?vencidas? também não sei...

Você tem 31 anos, mas na ficha do hospital está 30. Há 45 dias você tava por aí serelepe, faceira, de carro, louca de pressa, sempre com uma coisa pra fazer. Bonita, arrumada, sempre na volta da mãe. Do dia pra noite o infortúnio bateu a tua porta, as dores começaram...

Hoje a Cíntia desligou a televisão, que estivera o tempo todo ligada, como que para completar a vida que faltava nesse quarto e tudo ficou silencioso para morte poder se instalar.

Porque falar em passado agora?Você ainda está respirando. Acho que eu estou meio louca ou chapada!

Fico lembrando da gente no carnaval, de fantasia na escada do Clube. Lembro de um tempo que a gente pegou ferida na cabeça e o pai nos levou para cortar os cabelos bem curtinhos.

Meu Deus!Quanta bobagem eu penso...

Quero não perder a oportunidade enquanto respiras de dizer que eu te amo tanto, tanto, eu nem sabia, mais do que todos os que já partiram. Lembro das coisas que passaram, da Vó, do Vô que nos fazem tanta falta, pensava que tinham me abandonado, me deixado sozinha, mas agora vejo que não, eu tinha você e tínhamos umas as outras.

Droga!Já sinto a tua falta!Droga e você nem se foi ainda!

Passado e presente ficam se confundindo na minha mente, de repente vem algo que eu nem lembrava mais, coisas que já tinha dado por perdidas e mortas e agora ganham vida novamente, pode?Lembro dos dias em Rio Grande em que tu me levavas pela mão para a escola, eu tinha medo e tu me davas segurança, quem diria tu que sempre pareceu tão frágil.

Acho que tu nunca precisou de mim. Fala, tu precisou de mim algum dia? Me responde!

Lembro das tuas roupas, do teu cheiro, sempre cheirosa, correntinha no pescoço puro talco! Lembro do teu macacão cor de rosa, de suspensório e camisa branca. Ah aquela camisa branca que tu comprou naquela loja, como é o nome mesmo? Krás, sei lá! Tu adorava comprar roupas lá, diferente de mim que um all star, calça de brim e uma bolsa atravessa bastavam. Tu foi num baile do Impacto com aquela roupa lembra? Foi lá na Afaço, quando eu cai o maior tombo e morri de rir e tu morreu de vergonha.

A gente sempre foi tão diferente, tão diferente...fui deixando por conta das diferenças e opções pra te abraçar amanhã, estar contigo outro dia. Não tínhamos mais tempo. Eu e meus muitos amigos, você e seus namorados firmes.

Que quarto horroroso, eu choro em saber que terei saudades dessas paredes feias, só porque tu respirou esse ar, e até tua respiração fraquinha me é suficiente pra te ter por perto, se pudesse respiraria por ti, porque que não dá? Poderia respirar por ti...se desse...se desse...se desse...desse...esse...sse...sss

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Uma dor chamada Saudade


Eu e a Kátia juntas no meu aniversário de 3 anos, ela tinha quase dois anos

Nós duas e a boneca Soneca da Vó




Sempre que fecho os olhos, volto àquela tarde, sentada ao lado da cama dela, naquele hospital. Estava ali presente e, como sempre se repete na vida de qualquer um, melhor é a presença do que a ausência.E por mais egoísta que eu possa parecer eu preferiria ir todos os dias ao hospital e sentir sua presença, ouvir sua respiração, sentir o cheiro do suor nos seus cabelo, ver seus lábios balbuciar algumas palavras. Até hoje, por vezes penso que se pegasse o ônibus e fosse até o hospital, pegasse o elevador até o sexto andar, caminhasse por aquele longo corredor, penúltima porta à direita, poderia te encontrar ali do jeitinho que te deixei naquela tarde, deitada na cama junto a janela, de costas olhando para o pátio. O que será que pensavas? Quais eram teus sonhos mais secretos?

Quem sabe nesse dia você me olharia zangada e talvez me dissesse:

- Por acaso esqueceram de mim aqui? Coisa séria...vocês..

Penso o que fazer no Natal sem a tua presença. Acho que o Natal nunca mais terá graça sem você, sem tuas caretas...os presentes...sempre especiais...

Enxergo um anjo negro em nossas vidas e ele ri da minha cara, quando vê você partir e deixar esse vazio em mim...

Remexo nas fotografias, tão feias que estão, o tempo passou, acredita, nossas fotos eram em preto e branco, como hoje está a minha vida sem você. Algumas já amareladas, em outras tive que fazer um ajeite porque ao tentar descolar do álbum acabaram rasgando.

Tua carinha feliz, teu sorriso contagiante, persegui um certo tempo tua beleza e o teu jeito espontâneo, acabei desistindo de te alcançar e me esforçando ao máximo para tirar boas notas na escola, melhores que as tuas, é claro!...hoje sei q eu nunca fui páreo pra você, nunca.

Nós duas de minissaia curtíssima, sentadas no carrossel na festa da Igreja ou abraçadas no meu aniversário, quando inventaram uma capa que se colocava na tela da televisão e que deixava a imagem colorida, lembra? O Topogigio ficava vermelho...que máximo!!!Era brasa!!!

Nossa bonecas, ah nossas bonecas, as minhas se chamavam Ana alguma coisa e a tua preferida chamávasse Letícia, e a boneca Soneca da vó Morena, adorávamos brincar com ela, tínhamos que fazer isso escondido, pois ela não podia sair de cima da cama da Vó e era bom só porque não podíamos mexer...

Nossas fantasias de carnaval e as fotos na escada do clube, ano a ano, tu rainha, eu porta-bandeira. Era tão bom olhar para o lado e ter o pai e amãe junto da gente, a Vó, o Vô e o Carlinhos...todo mundo que a gente gostava.

Duas músicas me lembram de ti, uma publiquei no jornal logo depois que tu te foste, é do Kleiton e Kledir e escrevi ela no cartão que te dei no teu último aniversário: “Meu irmão, meu par”!...formamos um par a infância inteira, na adolescência e depois a gente foi se perdendo uma da outra, até se separar de vez...mas a vida é assim...

Ah, a outra música, acho que não a conheceste, vou cantar um pedaço, mas já sei que vou chorar, brigo comigo mesma quando isso acontece, meu peito dói e não é doença, é uma dor que eu chamo de ...Saudade. É assim:”...você precisa saber da piscina ( a que a mãe colocou nos fundos de casa, no lugar dos balanços e das laranjeiras), da Karolina (que cresceu tanto, precisando tanto de você, mas é uma mulher maravilhosa), da gasolina (que sempre me lembra o quanto você amava dirigir), você precisa saber de mim (que quase morri pela tua falta), baby, babyyyy (minha mana mais nova, meu par), eu sei que é assim...você precisa tomar um sorvete na lanchonete, andar com a gente, me ver de perto...comigo está tudo bem, contigo tá tudo em paz, moramos na melhor cidade da América do Sul...você precisa, você precisa..precisa saber o que eu sei e o que eu não sei mais (há tanta coisa que eu não sei mais...)

Pois é querida, o tempo passou, as coisas mudaram, não acreditaria se visse teus filhos agora!Cresceram tanto, estão bem, qualquer dia o Diogo casa, o Pedro vai para Faculdade.

...Estamos bem...eu estou bem e hoje até já sei que essa carta não vai precisar ser lida, um dia a gente vai se encontrar frente a frente e eu me alegro com isso...muito.

Esses dias sonhei que estava pegando um trem e que carregava aquela mala marrom do Vô Patrício, aquela que ele carregava relógios e bugingangas...o trem rodou e saiu da cidade, entrou num campo lindo e eu desci ali, caminhei por entre as árvores e te encontrei sentada em um banco, como esses bancos de praça, não sei o que fizemos, ou o que conversamos, mas tu estavas tão bem, tão bem, então acordei e chorei, chorei...
 não sei esperar, lembra? Quero tudo na hora, mas há tempo para todas as coisas...



terça-feira, 13 de abril de 2010

Eu sei, mas não devia...Marina Colasanti

Achei esse texto sensacional!

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.


A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos

e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.



E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.

E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.

E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz.

E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.



A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.

A tomar café correndo porque está atrasado.

A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.

A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.

A sair do trabalho porque já é noite.

A cochilar no ônibus porque está cansado.

A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.



A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.

E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.

E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz,

aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.



A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.

A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.

A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.

A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.



E a ganhar menos do que precisa.

E a fazer filas para pagar.

E a pagar mais do que as coisas valem.

E a saber que cada vez pagará mais.

E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra.



A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.

A abrir as revistas e a ver anúncios.

A ligar a televisão e a ver comerciais.

A ir ao cinema e engolir publicidade.

A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição.



As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.

A luz artificial de ligeiro tremor.

Ao choque que os olhos levam na luz natural.

Às bactérias da água potável.

A contaminação da água do mar.

A lenta morte dos rios.



Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães,

a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.



Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui,

um ressentimento ali, uma revolta acolá.

Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.

Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.



Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.

E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo

e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.



A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.

Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se

da faca e da baioneta, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta,

de tanto acostumar, se perde de si mesma.



É por tudo isso que minha luta não pára, durante as 24 horas de todos os dias...