segunda-feira, 23 de junho de 2014

Traduzir-te

    O mesmo ambiente branco de hospital, os mesmos sentimentos confusos e o inesgotável desejo de dizer-te, dizer-te tudo e nada. So´a mulher que assistia não era a mesma de 16 anos atrás, já estava beirando os 50 e ainda assim não tinha aprendido a sofrer. Na cama também era outra, não a jovem de 31 anos, mas a senhora de 64, ambas únicas, ambas especiais, ambas indispensáveis.
 Cama rodeada novamente por tuas meninas, a espera de uma melhora, a espera de uma palavra, a espera de um recomeço,a espera...e a música dizendo...e quem irá dizer que não existe razão...nas coisas feitas pela coração. E era só coração naquele quarto, só coração em nossos peitos, nela, no monitor refletindo batidas...descompassadas...fortes, fracas....nunca solitárias...nunca.
   
   O rosto era o mesmo, mas a vida não era a mesma, cada parte do teu corpo era o mesmo, mas inerte.Nada,absolutamente nada a fazer, nem mesmo gritar, absorver o silêncio das palavras que não foram ditas.
   Olhando as fotos vejo tantas mulheres diferentes em você e tantas mulheres iguais a tantas outras. Amenina com a criança nos braços, a jovem tentando adequar-se a uma vida de senhora, a senhora que ainda queria ser menina, a menina que tinha bonecas de verdade, a mulher que queria ser vista, valorizada, amada, acho que também, cuidada.
Via confusão de pensamentos, nunca vi medo em nenhum

 desses rostos... vi alegria, vontade de viver, esperança, força. Teu nome era Rosalva, mas era também Perseverança, com todos os atributos que a palavra traduz...longa esperança...esperança que não acaba...esperança que é forte e que persiste.Como queria traduzir-te...não posso.


Minha mãe

    Minha mãe era apenas 14 ou 15 anos mais velha que eu, meio mãe, meio irmã mais velha. Às vezes brigávamos, às vezes competíamos, às vezes colocávamos a culpa de algo errado uma na outra, ficávamos de cara amarrada, ficávamos de mal, mas como é com todas irmãs fazíamos sempre as pazes, mas como é com mãe e filha sempre havia perdão e amor incondicional. 
   Minha mãe como toda a mãe, era a melhor do mundo, mas era ímpar em alguns aspectos, era forte, guerreira, invencível. Muitos podem pensar, mas não venceu a morte, mas há coisas pelas quais vale a pena sermos vencidos. 
   Penso que voltou pra casa, temos que ter a grandeza de entender que essa é nossa hora de abrirmos mão, hora de deixar partir, hora de voltar para casa. Lá no céu, sobretudo tem nosso Pai, nosso irmão querido que deu sua própria vida por nós, mas tem meu pai,um marido que partiu com 41 anos; minha irmã, uma filha que partiu aos 31, partiram tão precocemente. Lá se Deus quiser ela vai reencontrar seus pais, um pai querido e amigo que lhe amou tanto e uma mãe forte e guerreira como ela que a deixou ainda menina, seu irmão Lori que foi um filho e que morreu também tão cedo. Uma família com histórias de mortes tão prematuras como a nossa, mas que marcou essa terra com suas presenças e suas histórias de vida. 
   Penso, é claro que ficamos com um vazio enorme, é claro que não será fácil viver os próximos tantos dias que teremos, mas essa mulher me ensinou tanto, de tanto, de tanto. Me deu o privilégio de ser a primeira, de ter tido mais tempo com ela, tempo que depois as outras recuperaram. Foram dias de meninice acompanhando seus sonhos e suas derrotas e vitórias,sua gravidez, uma a uma e a chegada de suas meninas, as quais ela amou com amor profundo e cuidou como faz uma verdadeira mãe.
São tantas as histórias que ela desejou escrevê-las todas, mas que o faz e fará através de mim e quem sabe dos netos e quem sabe das filhas e quem sabe de todos nós que continuaremos a escrevê-las um dia após o outro.

Rosa Alva

Mãe, se a vida fosse um barco e você uma navegante,
certamente estaria na proa, recebendo toda a brisa do mar,
mas também o açoite das ondas
Sentindo o frescor do vento manso em teus cabelos, caracóis,
mas também o cortante das tempestades.
Esse barco que é a vida, balança, balança, agita-se,
quer naufragar
Mas o mais extraordinário em ti,
é que te manténs em pé, sem recuar,
Sabendo que Aquele que está no leme
é quem garante tua chegada a um porto seguro.
-2007-


sexta-feira, 1 de março de 2013

Um pardal que se banha nos restos de chuva da noite passada
um cego que caminha ao sol da manhã, depois da chuva
Eu, aqui tentando orar, tentando te buscar desesperadamente...

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

FRASES DO LIVRO "O PEQUENO PRINCÍPE"


FRASES DO LIVRO O PEQUENO PRÍNCIPE – ANTOINE DE SAINT- EXUPÉRY – EXTRAÍDAS EM 1984, QUANDO LI PELA PRIMEIRA VEZ


As pessoas grandes não compreendem nada sozinhas, e é cansativo, para as crianças, estar toda hora explicando.

Tive assim, no correr da vida, muitos contatos com muita gente séria. Vivi muito no meio de pessoas grandes. Vi-as muito de perto. Isso não melhorou, de modo algum, a minha antiga opinião.

Vivi, portanto só, sem amigo com quem pudesse realmente conversar.

Mas ninguém lhe dera crédito, por causa das roupas que usava. As pessoas grandes são assim.

O astrônomo repetiu sua demonstração em 1920, numa elegante casaca. Então, dessa vez todo o mundo se convenceu.

Quando a gente lhes fala de um novo amigo, elas jamais se informam do essencial.

Quando a gente está triste demais, gosta do pôr-do-sol...

-Então...para que servem os espinhos?

-Eu conheço um planeta onde há um sujeito vermelho, quase roxo. Nunca cheirou uma flor. Nunca olhou uma estrela. Nunca amou ninguém.

-Se alguém ama uma flor da qual só existe um exemplar em milhões e milhões de estrelas, isso basta para que seja feliz quando a contempla. Ele pensa: “Minha flor está lá, em algum lugar...”

-É tão misterioso o país das lágrimas!

Mas aquela brotara um dia de um grão trazido não se sabe de onde, e o principezinho vigiara de perto o pequeno broto, tão diferente dos outros.

Não soube compreender coisa alguma! Devia tê-la julgado pelos atos, não pelas palavras.

Não devia jamais ter fugido. Devia ter-lhe adivinhado a ternura sob os seus pobres ardis. São tão contraditórias as flores!

Mas eu era jovem demais para saber amar!

É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas.

Pois ela não queria que ele a visse chorar. Era uma flor muito orgulhosa...

Mas o principezinho se espantava. O planeta era minúsculo. Sobre quem reinaria o rei?

É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar.

É bem mais difícil julgar a si mesmo que julgar os outros. Se consegues julgar-te bem, és um verdadeiro sábio.

Porque, para os vaidosos, os outros homens são sempre admiradores.

Após cinco minutos de exercício, o principezinho cansou-se com a monotonia do brinquedo.

Mas o vaidoso não ouviu. Os vaidosos só ouvem os elogios.

Pois a gente pode ser, ao mesmo tempo, fiel e preguiçoso.

...e o dia durará quanto queiras.

Talvez porque seja o único que se ocupa de outra coisa que não ele próprio.

Era o único que eu podia ter feito meu amigo.

Minha flor é efêmera, disse o principezinho, e não tem mais que quatro espinhos para defender-se do mundo! E eu a deixei sozinha!

Elas julgam ocupar muito espaço.

As estrelas são todas iluminadas...Não será para que cada um possa um dia encontrar a sua?

Tive dificuldades com uma flor.

O vento os leva. Eles não têm raízes. Eles não gostam das raízes.

No meu planeta eu tinha uma flor, e era sempre ela que falava primeiro.

Que quer dizer “cativar”?... Significa “criar laços”.

Mas se me cativares minha vida será como que cheia de sol.

Os outros passos me fazem ficar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música.

Os campos de trigo não me lembrar coisa alguma. E isso é triste!

Quando tiveres me cativado, o trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...

A gente só conhece bem as coisas que cativou.

É preciso ser paciente.

A linguagem é uma fonte de mal entendidos.

Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade!

-Ah!Eu vou chorar.

...eu não te queria fazer mal, mas tu quiseste que eu te cativasse...

Tu compreenderás que a tua é a única no mundo.

Mas eu fiz dela um amigo. Ela é agora única no mundo.

Sois belas, mas vazias.

Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.

Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.

Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.

-Nunca estamos contentes onde estamos – disse o guarda-chaves.

-Só as crianças sabem o que procuram.´

-É bom ter tido um amigo, mesmo se a gente vai morrer.

-As estrelas são belas por causa de uma flor que não se vê...

...no silêncio, alguma coisa irradia...

-O que torna belo o deserto ...é que ele esconde um poço em algum lugar.

Minha casa escondia um tesouro no fundo do coração...

...o que faz a sua beleza é invisível!

...o que eu vejo não é mais que uma casca. O mais importante é invisível...

É preciso proteger as lâmpadas com cuidado: um sopro as pode apagar...

Era boa para o coração, como um presente.

- Os homens do teu planeta – disse o principezinho – cultivam cinco mil rosas num mesmo jardim... e não encontram o que procuram...

- E no entanto o o que eles buscam poderia ser achado numa só rosa, ou num pouquinho d’água...

-Mas os olhos são cegos. É preciso buscar com o coração...

A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar...

E eu compreendi que não podia suportar a idéia de nunca mais escutar esse riso. Ele era para mim como uma fonte no deserto.

- O que é importante, a gente não vê...

-E quando te houveres consolado (a gente sempre se consola), tu te sentirás contente por me teres conhecido. Tu serás sempre meu amigo. Terás vontade de rir comigo. E abrirás às vezes a janela à toa, por gosto...

E nenhuma pessoa grande jamais compreenderá que isso tenha tanta importância!


terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Meu Poema Preferido: Fernando Pessoa

Hora de dormir

Frases de Mário Quintana


DAS UTOPIAS

Se as coisas são inatingíveis... ora!

Não é motivo para não querê-las...

Que tristes os caminhos, se não fora

A presença distante das estrelas!



Mário Quintana

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Quem é ela?

                                  

Quem é ela?


Aquela mulher ali, a magra que me olha no espelho.


Ah, por certo mais uma que sem pedir licença invade a minha vida,


Inconveniente, sem avisar.


Criatura estranha essa, sem bochechas, nem seios fartos...


Cruza as pernas como se outra coisa melhor não tivesse para fazer...


Fica ali invadindo meu olhar, minha vida, meu pensar,


Sequer me permite meditar em paz , nem mesmo me olhar no espelho posso


Ousa mudar a minha já construída imagem,


Resolvida pessoa


Como se assim pudesse...


Ah!!Mas que desaforada essa mulher magra, nariguda, de pescoço comprido...


Nada a ver com a minha história,


De pernas grossas e quadris largos...


Quem é essa?


Sorri para mim com grandes olhos, que se surpreendem


Com um mundo que nem bem conhecia


Por certo me pedirá ajuda, gritará por socorro,


Quando perceber que o mundo também é postiço


Como os cílios sobre seus olhos

Escrever para não enlouquecer



Mais um dia aqui ao teu lado. Estou na cama ao lado, ao lado do teu leito de morte e resolvi escrever, novidade nenhuma! Faço isso sempre e principalmente quando as coisas não vão bem.

Nossa mãe estava o tempo todo agarrada na tua mão, cabisbaixa. Agora foi lá fora, talvez fumar um cigarro, talvez fazer nada, não sei...Porque será que as mães ficam de cabeça baixa nessas horas? prostradas? estarrecidas?vencidas? também não sei...

Você tem 31 anos, mas na ficha do hospital está 30. Há 45 dias você tava por aí serelepe, faceira, de carro, louca de pressa, sempre com uma coisa pra fazer. Bonita, arrumada, sempre na volta da mãe. Do dia pra noite o infortúnio bateu a tua porta, as dores começaram...

Hoje a Cíntia desligou a televisão, que estivera o tempo todo ligada, como que para completar a vida que faltava nesse quarto e tudo ficou silencioso para morte poder se instalar.

Porque falar em passado agora?Você ainda está respirando. Acho que eu estou meio louca ou chapada!

Fico lembrando da gente no carnaval, de fantasia na escada do Clube. Lembro de um tempo que a gente pegou ferida na cabeça e o pai nos levou para cortar os cabelos bem curtinhos.

Meu Deus!Quanta bobagem eu penso...

Quero não perder a oportunidade enquanto respiras de dizer que eu te amo tanto, tanto, eu nem sabia, mais do que todos os que já partiram. Lembro das coisas que passaram, da Vó, do Vô que nos fazem tanta falta, pensava que tinham me abandonado, me deixado sozinha, mas agora vejo que não, eu tinha você e tínhamos umas as outras.

Droga!Já sinto a tua falta!Droga e você nem se foi ainda!

Passado e presente ficam se confundindo na minha mente, de repente vem algo que eu nem lembrava mais, coisas que já tinha dado por perdidas e mortas e agora ganham vida novamente, pode?Lembro dos dias em Rio Grande em que tu me levavas pela mão para a escola, eu tinha medo e tu me davas segurança, quem diria tu que sempre pareceu tão frágil.

Acho que tu nunca precisou de mim. Fala, tu precisou de mim algum dia? Me responde!

Lembro das tuas roupas, do teu cheiro, sempre cheirosa, correntinha no pescoço puro talco! Lembro do teu macacão cor de rosa, de suspensório e camisa branca. Ah aquela camisa branca que tu comprou naquela loja, como é o nome mesmo? Krás, sei lá! Tu adorava comprar roupas lá, diferente de mim que um all star, calça de brim e uma bolsa atravessa bastavam. Tu foi num baile do Impacto com aquela roupa lembra? Foi lá na Afaço, quando eu cai o maior tombo e morri de rir e tu morreu de vergonha.

A gente sempre foi tão diferente, tão diferente...fui deixando por conta das diferenças e opções pra te abraçar amanhã, estar contigo outro dia. Não tínhamos mais tempo. Eu e meus muitos amigos, você e seus namorados firmes.

Que quarto horroroso, eu choro em saber que terei saudades dessas paredes feias, só porque tu respirou esse ar, e até tua respiração fraquinha me é suficiente pra te ter por perto, se pudesse respiraria por ti, porque que não dá? Poderia respirar por ti...se desse...se desse...se desse...desse...esse...sse...sss

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Uma dor chamada Saudade


Eu e a Kátia juntas no meu aniversário de 3 anos, ela tinha quase dois anos

Nós duas e a boneca Soneca da Vó




Sempre que fecho os olhos, volto àquela tarde, sentada ao lado da cama dela, naquele hospital. Estava ali presente e, como sempre se repete na vida de qualquer um, melhor é a presença do que a ausência.E por mais egoísta que eu possa parecer eu preferiria ir todos os dias ao hospital e sentir sua presença, ouvir sua respiração, sentir o cheiro do suor nos seus cabelo, ver seus lábios balbuciar algumas palavras. Até hoje, por vezes penso que se pegasse o ônibus e fosse até o hospital, pegasse o elevador até o sexto andar, caminhasse por aquele longo corredor, penúltima porta à direita, poderia te encontrar ali do jeitinho que te deixei naquela tarde, deitada na cama junto a janela, de costas olhando para o pátio. O que será que pensavas? Quais eram teus sonhos mais secretos?

Quem sabe nesse dia você me olharia zangada e talvez me dissesse:

- Por acaso esqueceram de mim aqui? Coisa séria...vocês..

Penso o que fazer no Natal sem a tua presença. Acho que o Natal nunca mais terá graça sem você, sem tuas caretas...os presentes...sempre especiais...

Enxergo um anjo negro em nossas vidas e ele ri da minha cara, quando vê você partir e deixar esse vazio em mim...

Remexo nas fotografias, tão feias que estão, o tempo passou, acredita, nossas fotos eram em preto e branco, como hoje está a minha vida sem você. Algumas já amareladas, em outras tive que fazer um ajeite porque ao tentar descolar do álbum acabaram rasgando.

Tua carinha feliz, teu sorriso contagiante, persegui um certo tempo tua beleza e o teu jeito espontâneo, acabei desistindo de te alcançar e me esforçando ao máximo para tirar boas notas na escola, melhores que as tuas, é claro!...hoje sei q eu nunca fui páreo pra você, nunca.

Nós duas de minissaia curtíssima, sentadas no carrossel na festa da Igreja ou abraçadas no meu aniversário, quando inventaram uma capa que se colocava na tela da televisão e que deixava a imagem colorida, lembra? O Topogigio ficava vermelho...que máximo!!!Era brasa!!!

Nossa bonecas, ah nossas bonecas, as minhas se chamavam Ana alguma coisa e a tua preferida chamávasse Letícia, e a boneca Soneca da vó Morena, adorávamos brincar com ela, tínhamos que fazer isso escondido, pois ela não podia sair de cima da cama da Vó e era bom só porque não podíamos mexer...

Nossas fantasias de carnaval e as fotos na escada do clube, ano a ano, tu rainha, eu porta-bandeira. Era tão bom olhar para o lado e ter o pai e amãe junto da gente, a Vó, o Vô e o Carlinhos...todo mundo que a gente gostava.

Duas músicas me lembram de ti, uma publiquei no jornal logo depois que tu te foste, é do Kleiton e Kledir e escrevi ela no cartão que te dei no teu último aniversário: “Meu irmão, meu par”!...formamos um par a infância inteira, na adolescência e depois a gente foi se perdendo uma da outra, até se separar de vez...mas a vida é assim...

Ah, a outra música, acho que não a conheceste, vou cantar um pedaço, mas já sei que vou chorar, brigo comigo mesma quando isso acontece, meu peito dói e não é doença, é uma dor que eu chamo de ...Saudade. É assim:”...você precisa saber da piscina ( a que a mãe colocou nos fundos de casa, no lugar dos balanços e das laranjeiras), da Karolina (que cresceu tanto, precisando tanto de você, mas é uma mulher maravilhosa), da gasolina (que sempre me lembra o quanto você amava dirigir), você precisa saber de mim (que quase morri pela tua falta), baby, babyyyy (minha mana mais nova, meu par), eu sei que é assim...você precisa tomar um sorvete na lanchonete, andar com a gente, me ver de perto...comigo está tudo bem, contigo tá tudo em paz, moramos na melhor cidade da América do Sul...você precisa, você precisa..precisa saber o que eu sei e o que eu não sei mais (há tanta coisa que eu não sei mais...)

Pois é querida, o tempo passou, as coisas mudaram, não acreditaria se visse teus filhos agora!Cresceram tanto, estão bem, qualquer dia o Diogo casa, o Pedro vai para Faculdade.

...Estamos bem...eu estou bem e hoje até já sei que essa carta não vai precisar ser lida, um dia a gente vai se encontrar frente a frente e eu me alegro com isso...muito.

Esses dias sonhei que estava pegando um trem e que carregava aquela mala marrom do Vô Patrício, aquela que ele carregava relógios e bugingangas...o trem rodou e saiu da cidade, entrou num campo lindo e eu desci ali, caminhei por entre as árvores e te encontrei sentada em um banco, como esses bancos de praça, não sei o que fizemos, ou o que conversamos, mas tu estavas tão bem, tão bem, então acordei e chorei, chorei...
 não sei esperar, lembra? Quero tudo na hora, mas há tempo para todas as coisas...



terça-feira, 13 de abril de 2010

Eu sei, mas não devia...Marina Colasanti

Achei esse texto sensacional!

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.


A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos

e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.



E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.

E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.

E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz.

E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.



A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.

A tomar café correndo porque está atrasado.

A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.

A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.

A sair do trabalho porque já é noite.

A cochilar no ônibus porque está cansado.

A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.



A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.

E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.

E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz,

aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.



A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.

A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.

A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.

A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.



E a ganhar menos do que precisa.

E a fazer filas para pagar.

E a pagar mais do que as coisas valem.

E a saber que cada vez pagará mais.

E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra.



A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.

A abrir as revistas e a ver anúncios.

A ligar a televisão e a ver comerciais.

A ir ao cinema e engolir publicidade.

A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição.



As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.

A luz artificial de ligeiro tremor.

Ao choque que os olhos levam na luz natural.

Às bactérias da água potável.

A contaminação da água do mar.

A lenta morte dos rios.



Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães,

a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.



Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui,

um ressentimento ali, uma revolta acolá.

Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.

Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.



Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.

E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo

e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.



A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.

Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se

da faca e da baioneta, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta,

de tanto acostumar, se perde de si mesma.



É por tudo isso que minha luta não pára, durante as 24 horas de todos os dias...

domingo, 21 de março de 2010

sábado, 9 de janeiro de 2010

Pinheiro que não se fabrica mais


Antão, fala mais baixo!!! – falou minha mãe, dizendo para diminuir o tom de voz. Sabe o que é? Antão era um homem grandão que morava aqui na cidade. Grande como ele só a sua voz. Parecia aqueles negrões americanos com voz supersônica.

E minha mãe não perdia uma só oportunidade para nos comparar com alguém, se era gorda, era igual a Dona redonda da novela Saramandaia, se era magra também não escapava ela dizia que era igualzinha a Dona Conceição, a merendeira lá da escola. Então, Antão.

Mal ou bem, de família ou não, só sei que falar aos trovejões é marca registrada das mulheres da minha família, mal que vai passando de geração em geração. Esse atributo é herança paterna, muito embora, minha mãe , talvez por hábito tenha se tornado um Antão de saias.

Meu avô era assim, as pessoas se assustavam e pediam desculpas quando ele as elogiava, tal era o griteiro e o jeito sisudo que costumava falar.

Seu Pinheiro, sincero e honesto como não mais conheci outro. Vendia seus relógios assim: Esse é uma bagatela, mas já vou avisando que não tem garantia, não vale grande coisa. Mas... – dizia ele virando para o outro balcão.

- Se quiser coisa boa, com garantia e á prova dágua, temos esses aqui Oriento ou Technos. Esses sim, duram a vida toda.

Com ele não tinha tranqueira levava se tinha dinheiro ou se não tinha, , ninguém entendia seu jeito de fazer negócios, mas que dava certo, ah isso dava. Acabou se tornando um dos mais estáveis comerciantes de Ouro Negro, cidade onde nasci e moro até hoje.

Era também em Ouro Negro que morava uma anãzinha que se ocupava de ficar parada na porta do banco a pedir moedas. Era quase fanha a coitada, falava oitenta por cento pelo nariz e vinte por cento pelo guarda-chuva ou sombrinha que carregava na mão.

Figura sofrida essa Dona Violeta, sozinha com sua touca de crochê azul, meias listradas em estilo zebrinha e a sua já tão falada sombrinha de bater na gurizada que a perseguia rindo e chamando:

-Lagartiiiixaaaaaa!!!

Pois foi para ela, a Lagartixa que Seu Pinheiro abriu crediário realizando um antigo anseio da baixinha com nome de flor, ter o seu radinho de pilha para ouvir a Rádio Itaí. Toda a semana, religiosamente ela aparecia, sombrinha numa mão e agora, radinho de pilha pendurado no braço, trazendo uns “pilinhas” para diminuir a dívida.

Uma vez elogiei a atitude do meu avô e ele, sisudo e com um vozeirão a “la antão”, disparou:

-Favor coisa nenhuma. Eu sou lá de fazer favor pra alguém? E negócio é negócio, entendeu “chouriço”. – dizia me apertando o nariz.

Entendi sim, era “negócio”. Essa foi uma das diversas vezes em que vi meu avô dar outro nome a generosidade e respeito ao próximo.

Pinheiro assim que o mundo não fabrica mais!

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Preces e Risos






   Numa certa época o objeto mais chique que tínhamos em casa era uma bíblia grande com a borda das folhas douradas.Todas juntas reluziam parecendo ouro. Até hoje não sei o fim que deram a ela;só sei que fazia parte das diversas coleções

de livros que meu pai adorava comprar dos viajantes.Meu amor

pela leitura é herança de pai e mãe; minha mãe sempre gostou de ler e meu pai era apaixonado pelos livros , achava-os importantes, gostava de vê-los na estante enfileirados e limpos, com cheiro de novo.

   Novenas e procissões faziam parte do calendário religioso da família e nós meninas , botávamos vestidos de brodery , meia americana,sapato de verniz , melindrosas de bolinhas e correntes com medalha de santinho no pescoço.

Era uma festa , toda a cidade se reunia , a procissão partia da igreja matriz e dava a volta na cidade. A mais bonita pra mim era a de Santa Bárbara, nela a Santa era carregada cheia de flores pelos mineiros que usavam capacetes com as luzes acesas na cabeça,uniformizados iam iluminando o caminho até a mina de carvão, onde a Santa era levada até o subsolo para abençoar o local e trabalhadores,protegendo-os de acidentes e desgostos, como se isso fosse possível...

Mais tarde continuaria gostando muito dessa data , 4 de dezembro, aniversário de alguém muito especial , com quem partilharia a janela pra ver a santa passar todos os anos em direção ao poço, naquele ritual idólatra.

Mas, voltando ao passado , numa dessas procissões , iam em nossa frente carregando velinhas acesas e rosários de cristal,duas senhoras respeitadíssimas ; uma delas muito eloqüente

em rezar suas rezas e cantar seus cantos,os quais podiam ser ouvidos a bons metros de distância .

Dona Josefa e Dona Carmelita eram também conhecidas por gostarem de uma boa fofoca e estarem sempre muito bem informadas a respeito da vida alheia.

Pois nessa procissão,o padre dizia: ave Maria cheia de graça ,o senhor é convosco e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus.

E os fiéis em coro rezavam a outra Parte :santa Maria,mãe de Deus ,etc.etc..e tudo de novo.

Eu e minha irmã que mais especulávamos quem tava na procissão do que rezávamos , curiosidade própria das crianças entre 7 e 8 anos –íamos de braços dados ao lado de nossos pais e atrás da Dona Josefa e Dona Carmelita. E, como já disse , as duas rezavam fervorosas e tão alto que boa parte dos fiéis ouviam e se sentiam desobrigados de repetirem a sua parte, só que no meio das preces iam colocando os assuntos em dia . Numa dessas, subindo a rua da igreja , prosseguiam as duas eloqüentes .
   O padre disse : Ave Maria cheia de graça...
   E   Dona Carmelita: - Santa Maria mãe de Deus, zefa o que é aquele prédio ali na esquina ? agora e na hora de nossa morte.Amém.
Prontamente responde a outra:

-Amém! Glória ao pai ao fi... ,aquele é o prédio duma mulher de São Jerônimo... Santa Maria mãe de Deus.

-Rogai por nós pecadores, mas o que vão vender? Ave Maria cheia de graça .- continua  Dona Josefa.

-É uma loja, Souza e Souza é o nome (e incrementando a voz prosseguiu a oração ) Bendito é o fruto do vosso ventre ...

As duas:Amém!

   Sem poder segurar o riso, coisa que nunca consegui mesmo e para não sermos notados e acusados de blasfêmia, meu pai não menos louco pra rir, parou a beira da estrada e trocamos de lugar na procissão. Ali tinha se estragado o programa ou melhorado, cá pra nós. Eu e minha irmã, não conseguimos fazer outra coisa que não fosse rir e imitar as duas carolas, o que nos valeu bons beliscões-beliscõezinhos, que quanto menores, mais doíam.

   Quisera eu que a coisa parasse por aí, que no outro dia não tivesse a novena e eu não tivesse que ficar perto da dona Josefa, pois ela era do coro e nós, eu e outras crianças, líamos versículos bíblicos durante a missa.Tudo ia bem e eu até poderia ter esquecido do episódio, se Dona Zefa não fosse aquele tipo de carola empolgadíssima em suas rezas e cant
   Num dos cânticos ela extravasou, dessa vez para uma platéia bem maior (no mínimo metade da população da cidade). A música era aquela, cujo o refrão diz!Glória, Glória, Aleluia! Foi no decorrer da canção que dona Zefa foi se empolgando sua voz ficando cada vez aguda.

   E de repente ela se entregou a canção, todos pararam de cantar e ela continuou, abafando:glória, glória, aleluiaaaa.O padre vendo a situação prolongou o canto, até ficar insustentável. O padre então a contragosto bateu em seu ombro e fez um sinal lembrado que queria continuar a missa.

Eu, bum, explodi, explodi de rir e tive que sair correndo da igreja. SEmpre foi assim, engulo o choro, mas o riso, por favor não me peça!



FOTO: irmãs Cajazeiras da novela "O bem Amado" sempre me lembram das procissões .













O Cruzeirão




Em um ponto qualquer de Porto Alegre. Segunda, às 9 e 30 da manhã. Chuva que Deus manda. Numa parada de ônibus depredada, pichada, estropiada. Eu ali, de capa, bota, sacola numa mão, mochila na outra e um guarda-chuva de contra-peso. E nada do Cruzeirão passar.

A cada momento chegava mais e mais gente e a parada ai inchando, inchando. E as pessoas insistindo em ficar todas no mesmo lugar, em baixo do abrigo, mesmo que destelhado. Como se a passagem de ônibus incluísse vaga no abrigo.

Ao meu lado uma senhora gorda, com óculos embaciados, uma capa vinho de gabardini e chapéu mesmo tecido e mesma cor, completamente encharcados, uma bota larga de cano curto, dando ar de galochas e com a maior tromba, disputando com o olhar e o cotovelo, um espaço em cima de uma pedra.

Escoradas na lateral do abrigo, onde batia água, conversavam duas senhoras do lar, baixas, magras, apáticas e narigudas. A de verruga na sombrancelha falou para outra:

-Ele bate em mim, mas só de vez em quando. –num tom bem alto, num descanso, como que sugerido que as outras mulheres da parada, pelo menos de vez em quando levavam um sopapo ou um regabofes do marido. E ela, absoluta, a única com coragem de assumir.

A outra nariguda, por sua vez, balançava desolada a cabeça, cabisbaixa, de um lado para o outro, de vez em quando dizia:

-É brabo vizinha...é brabo...

-Ele bebe, mas não deixa faltar nada lá em casa - prosseguia a baixinha, cada vez mais inchada de orgulho.

-Os armários tão sempre cheio, do bom e do melhor!

E eu cá nos meus botões: Agora ela ta me desafiando, tá insinuando que os meus armários estão vazios. E eu nessa chuva, tendo que agüentar tudo isso. Meu Deus! My God! Alah, meu bom Alah!

E continuava a conversa, que já atraía a atenção de todos os passageiros do Cruzeirão, que não chegava:

-Não diz nome feio, que é pra não dar mal exemplo pros filho....bebe e vai dormir.

A outra, enfim trocou a frase:

-É não é fácil vizinha...não é fácil...

-Não é fácil, mas eu pelo menos não sou fingida e mentirosa, que nem a Janete Saracura, a senhora conhece né?

-A da casa amarela, a do cinamomo?

-É, a mulher do Tião maneta. Aquela apanha até por dentro dos olho. Tu te lembra quando ela se perdeu, que foi uma desgraceira pra família - falava apertando a boca e forçando uma papada, sabe como,né?

-Coisa muito triste! Mas a gente que tem filha moça, até nem pode tá falando – ponderava a outra.

-Mas eu não to falando, só to lembrando da desculpa esfarrapada que ela deu pro pai, mais pra mãe dela e que o resto da lomba ficou sabendo.

-Eu não to bem lembrada, também faz tanto tempo...-desconversava a vizinha, pelo jeito evitando fofoca.

-É faz tempo, mas ta vivinho aqui - bateu na cabeça, encaixolando os miolos e continuava:-Dizia que pegou barriga no banco quente. Por certo de algum crioulo, por que aquela criança era bem escurinha – falou rapidinho empolgada com o público atento da parada.

A essas alturas, eu já tava ensopada e tinha perdido a pedra pra gorda de óculos, que queria assistir tudo de camarote.

E a conversa continuava, enquanto ia passando uma turnê de ônibus: Cohab Cavalhada, Tristeza, T4, T2, T3 e todos os Tes, menos o Cruzeirão, o único que largava a gente em frente a Rodoviária.

Comecei a me preocupar com o horário e a sentir frio. Enfim dois ônibus pararam na sinaleira, um com as listras verdinhas, era o Cruzeiro. Num instante o povo todo se alinhou as pressas, puxando o dinheirinho da passagem. E aí vinha o Cruzeiro e POFT, dava um banho d’água em todo o mundo, inclusive na gorda que me roubou a pedra e que foi a primeira a formar fila. Bem feito! Que saco! Eu também fiquei toda encharcada, não fosse a comicidade das duas narigudas fofoqueiras terem tomado um banho e mais parecerem dois marrecos, eu teria pedido briga com o motorista.

Rumo a rodoviária, costeando o hipódromo. Quanto tempo morando nas barbas do hipódromo, sem nunca ter tido um pila pra assitir as corridas. È a vida!

Eu na janela, do meu lado uma negra forte, que no mínimo tinha despejado meio vidro de cashemere bouquet por cima. É minha mãe tinha razão, cashemere bouquet cheirava a morto.

E eu me nauseando, se virasse pra esquerda era desmaio na certa. Me levantei, eu, capa, bota, sacola numa mão, mochila na outra e um guarda-chuva de contra-peso.

sábado, 19 de dezembro de 2009

SARAU LITERÁRIO




O SARAU LITERÁRIO DE CHARQUEADAS NASCEU DE UMA IDÉIA  QUE SURGIU QUANDO EU ESTAVA NA PRESIDÊNCIA DA COMISSÃO DE EDUCAÇÃO DA CÂMARA DE CHARQUEADAS EM 2004, QUANDO PENSAMOS EM REUNIR OS LITERATOS DO MUNICÍPIO PARA APRESENTAREM SEUS ESCRITOS EM UM SARAU. O EVENTOU DEU CERTO E ACABOU POR FOMENTAR A EFETIVAÇÃO DA ASLIC - ASSOCIAÇÃO DOS LITERATOS DE CHARQUEADAS.A PREFEITURA ACABOU ENCAMPANDO O EVENTO JUNTO A ASSOCIAÇÃO  E ANUALMENTE TRAZEM AO MUNICÍPIO UM ESCRITOR FAMOSO E ABREM ESPAÇO PARA TODOS OS ESCRITORES COM TRABALHOS PUBLICADOS PALESTRAR EM E EXPOREM SUAS OBRAS E SUA VIDA.EM 2008 TIVE A HONRA DE SER ESCOLHIDA COMO PATRONESSE DO SARAU. NA FOTO APAREÇO COM MEU ESPOSO GIOVANE,NO MOMENTO EM QUE RECEBI UMA PLACA DA ASLIC, HOMENAGEANDO PELA CRIAÇÃO DO SARAU LITERÁRIO. FOI MUITO LEGAL!

TRIBUTO AO SR. JAIR

PATRÍCIA FERREIRA DA SILVA


AS PESSOAS TEM DESSAS COISAS DE QUERER JUBILAR E SANTIFICAR AS OUTRAS, DEPOIS QUE MORREM.


MAS POSSO GARANTIR QUE COMIGO NÃO FOI ASSIM, PASSEI ESSES ANOS QUE DEUS ME DEU JUNTO AO MEU SOGRO DIZENDO A TODOS O QUANTO EU ERA FELIZ POR TER EM MINHA VIDA DUAS PESSOAS COMO ELES. SEMPRE PRESENTES, PRINCIPALMENTE NAS HORAS MAIS DIFÍCEIS, SEMPRE PROCURANDO NOS RODEAR DE ATENÇÕES E CUMULAR DE BENÇÃOS. ÉRAMOS, NÓS, FILHOS, NORAS, GENRO, NETOS ENTÃO NEM SE FALA, A RAZÃO DE VIVER DOS DOIS E CREIO QUE CONTINUAREMOS SENDO PARA MINHA BOA E DILIGENTE SOGRA QUE FICOU, O SEU TUDO, PERSONAGENS PRINCIPAIS DA SUA VIDA.

LEMBRO DE TANTAS COISAS QUE NÃO AS PODERIA CONTAR TODAS DE UMA VEZ, SÃO MUITAS. ANTES DE SER MEU SOGRO O SEU JAIR FOI MEU COLEGA NA PREFEITURA E LEMBRO QUE ALI NA PREFEITURA ONDE É HOJE O BONATO, FAZÍAMOS TODOS OS DIAS UMA LONGA FILA PARA BATER O PONTO E

TODA A SEMANA, ESPECIALMENTE NAS SEGUNDAS E SEXTAS-FEIRAS, ELE SEMPRE VINHA COM UMA GRACINHA, GOSTAVA MUITO DE SE ARRIAR NOS COLEGAS. UMA VEZ ELE COM MUITO ESMERO PREPAROU UM RABINHO DE ARAME E PAPEL E PEDIU PARA UM COLEGA ENCAIXAR DIREITINHO NA CALÇA DO JOÃO NA FILA DO PONTO E DEPOIS COM JEITINHO ELE MESMO PÔS FOGO, FOI UMA FESTA! PENA QUE O FOGO NÃO APAGOU E ACABOU QUEIMANDO CALÇA E CAMISA DO TAL E SAPECANDO UM POUCO A SUA POUPANÇA...MAS SEU JAIR JÁ ESTAVA LONGE PRA VER O ESTRAGO. O COLEGA NÃO TEVE O MESMO ESPÍRITO, NÃO ACEITOU A BRINCADEIRA, FICOU FURIOSO E FOI QUEIXAR-SE AO PATRÃO, QUE FEZ TODO O ESFORÇO PARA NÃO RIR NA FRENTE DO RAPAZ E GARANTIU TOMAR UMA PROVIDÊNCIA, CHAMOU O JAIR E DEU UM GANCHO A ELE. PASSADOS OS DIAS DE CASTIGO, O JAIR FOI NOVAMENTE CHAMADO NA CHEFIA, FOI QUANDO PERGUNTOU DO QUE ESTAVA SENDO ACUSADO E LHE DISSERAM, TU SABE, DE POR RABO NO SEU COLEGA DE TRABALHO. ELE DISSE, RABO EU NÃO BOTO, MAS FOGO...

MOTORISTA DA AMBULÂNCIA DA PREFEITURA E NAQUELA ÉPOCA A AMBULÂNCIA TINHA UMA MACA E CAMISA DE FORÇA PARA LEVAR OS “LOUCOS” PRO SÃO PEDRO E OUTROS HOSPITAIS EM PORTO ALEGRE. UM DIA DE MANHÃ, TUDO COMBINADO, ELE E OUTRO COLEGA PEGARAM A MARILANE, UMA DAS FUNCIONÁRIAS DA SECRETARIA DE EDUCAÇÃO A FORÇA , METERAM NA CAMISA DE FORÇA, ATARAM NA MACA E COMEÇARAM A DAR VOLTAS NA QUADRA DA PREFEITURA COM A SIRENE LIGADA E A MARILANE GRITANDO DESESPERADA: ME SOLTA, ME SOLTA!!!

COISAS ASSIM, COMO AQUELA VEZ, FAZ POUCO TEMPO QUE LIGOU PARA O TAXISTA DE MADRUGADA E DISSE QUE ERA UM CLIENTE QUE QUERIA UMA CORRIDA, QUE PEGASSE ELE EM FRENTE AO CEMITÉRIO, SENÃO IA VER O QUE ACONTECERIA. NO OUTRO DIA O TAXISTA CONTOU A HISTÓRIA PRA TURMA NO FAMOSO BANQUINHO DA PRAÇA, SÓ QUE TODOS JÁ SABIAM DA SACANAGEM E FOI AQUELA RISALHADA. AH... QUANTAS VEZES VAMOS LEMBRAR E TER SAUDADES DELE, MUITO MAIS QUE MUITAS,,,TENHO CERTEZA DISSO.

O GIOVANE GOSTA DE C ONTAR DAS SACANAGENS E TAMBÉM DAS BRABICES DO SEU PAI, QUE QUANDO ELE E O JAIRO BRIGAVAM, AMARRAVA OS DOIS UM DE COSTAS PRO OUTRO NUMA ÁRVORE NOS FUNDOS DE CASA. QUE O GIOVANE COSTUMAVA SAIR E NÃO CUMPRIR HORÁRIO DE VOLTA E QUE UM DIA QUANDO COMEÇARAM A CANALISAR E ARRUMAR A RUA JÚLIO ROSA, SEU JAIR SE ESCONDEU E TAPOU-SE COM UM LENÇOL, ESPEROU O GIOVANE CHEGAR PERTO E QUANDO ELE CHEGOU, LEVANTOU-SE E DEU UM BAITA SUSTO...O GIOVANE FOI PARAR LÁ NA TIA CELA APAVORADO E FICOU POR MUITO TEMPO ACREDITANDO EM FANTASMA E SEM SABER QUE O FANTASMA ERA O PAI DELE.

GELÉIA DE MOCOTÓ, CHURRASCO NO DOMINGO E A PRAIA?

ELE SENTADO EM SUA CADEIRA NOS FUNDOS DA CASA TOMANDO CHIMARRÃO, PENSATIVO...OU NA FRENTE ONDE JÁ TINHA UMA CADEIRA QUE ERA SÓ DELE OU DE CHAPÉU DE PALHA NA PRAIA FAZENDO SEMPRE UMA REFORMA, O SEU ERONÍ E O DORMINHOCO...INVENTANDO ALGO, SOLTANDO PANDORGAS, CORTANDO PINHEIROS,TOMANDO CHIMARRÃO E CONTANDO CAUSOS COM O NEGRINHO E A RITA...COM OS NETOS OU SÓ OS DOIS, LOUCOS DE MEDO DE LADRÃO NA PRAIA...MEU DEUS! O TEMPO SE FOI...AGORA UM OUTRO TEMPO...SEM ELE...

LEMBRO QUE QUERIA TANTO VER MEU PAI, UMA NOITE NÃO CONSEGUIA DORMIR, EU E O GIOVANE APENAS NAMORADOS E EU COMENTEI QUE TINHA VONTADE DE VER MEU PAI NO HOSPITAL AQUELA NOITE, ELE PEGOU A BRASÍLIA AMARELA E ME LEVOU LÁ, ACABEI CHEGANDO NEM BEM DEZ MINUTOS ANTES DELE MORRER.COMPLICADAS ESSAS LEMBRANÇAS, ACHO QUE FOI ALI QUE ME ADOTOU PRA FILHA TAMBÉM, TINHA VISTO A MINHA FRAGILIDADE, ACHO QUE SEMPRE SOUBE QUE POR TRÁS DAQUELA CARA DE SABE-TUDO E RESOLVE TUDO HAVIA ALGUÉM...EU.

LEMBRO DA FOTO DO MEU PAI MOÇO EM FRENTE AO CLUBE UNIÃO, COM UM AMIGO MORENO DO LADO, ERA ELE, OS DOIS COM UM CIGARRINHO NO MEIO DOS DEDOS, ERAM AMIGOS. O TARTARUGA E O TIO VILA E APRONTARAM POUCAS E BOAS JUNTOS. O QUE NÃO SABIAM É QUE UM DIA OS FILHOS IAM SE CONHECER E CASAR E TER FILHOS, ACHO O NICOLAS UMA MISTURA DOS DOIS.O NICOLAS, O PRIMEIRO NETO, O COMPANHEIRO DO VOVÔ, TEVE TODOS OS PRIVILÉGIOS E ADOTOU ALGUNS JEITOS E MANIAS DO AVÔ, TOMA SEU CHIMARRÃO SOZINHO, GOSTA DE BRINCAR E FAZER GRAÇA COM A CARA DOS OUTROS, ACHA TUDO ENGRAÇADO E AO MESMO TEMPO É MUITO FAMÍLIA. VAI TER O PRIVILÉGIO E O PREJUÍZO DAS BOAS E DAS MÁS LEMBRANÇAS...CADA NETO SEMPRE TÃO ESPECIAL PARA ELE, CADA UM, O NIC, A MARINA(GRITONA), O JOSÉ (ZEZINHO), A RAQUELI (ESSA GURIAZINHA), A ANINHA DO VOVÔ E A MARIA CLARA (A PRETINHA).

NOSSA ALEGRIA É SABER QUE ELE NÃO ESTÁ EM UMA ESTRELA QUE BRILHA OU VAGANDO POR AÍ, MAS JUNTO DE DEUS NO LUGAR EM QUE O SENHOR ESCOLHEU E RESERVOU PARA ELE. A DAIANE TROUXE A PALAVRA QUE DEUS DEU NAQUELA TARDE TÃO DIFÍCIL E TÃO TRISTE, ESTÁ EM ECLESIASTES 3 – HÁ TEMPO PARA TODAS AS COISAS...TEMPO DE NASCER E TEMPO DE MORRER E EM JOÃO: 14 – NA CASA DE MEU PAI HÁ MUITAS MORADAS E QUE O SENHOR HAVIA PREPARADO MORADA PARA SEUS AMADOS. ELE PRÓPRIO QUIS ASSIM, ENTREGOU SUA VIDA PARA JESUS, AGORA É DELE E CERTAMENTE NOS REENCONTRAREMOS NA GLÓRIA! OUTROS TEMPOS!

Sexta-feira 13 – Dia de Chuva

                                                 Patrícia Ferreira da Silva








   Sensações estranhas – dia também do aniversário do meu afilhado querido, Douglas e de minha sobrinha Letícia – churrasco à noite.


   De tarde no serviço me senti mal, pensei que era pressão alta, mas fui ao posto e estava normal, é a coluna... não agüento a dor


  Para ajudar no fim do expediente batia água e nada do Rogério me buscar, tinha reunião na escolinha do Lucas. Foi aparecer tarde, seis e tantas, pra ajudar faltou gasolina no meio do caminho, na frente da casa do Pato e o Rogério tomou o maior banho de chuva pra pegar gasolina, normal... também não pôde ir na reunião, foi pra casa...normal...e eu tive que ir sozinha para reunião de pais e depois voltar de carona com a Regina – isso foi pra completar a minha sexta-feira 13 é claro!!


   Participei da reunião e, quando pensei, agora vou pra minha casinha, tomar um banho quentinho e... a Regina vem com a sua conhecida paciência de Jó e me diz que ia aproveitar minha companhia para fazer umas comprinhas e eu, morta de dor na coluna, já falei isso uma vez e só de repetir dóiiii. Mas, como uma boa caroneira, sorri educadamente e disse: - É claro, pode contar comigo.


  Vejam os senhores e as senhoras que acabamos ficando lá até as oito da noite, a loja ficava na casa da mulher que veio nos atender com um dos filhos agarrados no pescoço, enquanto outros corriam pela sala fazendo uma algazarra daquelas.
Também não era para menos, meninos. Afastei uns brinquedos, empurrei para o lado algo que parecia restos de bolacha mordidos e abandonados no sofá e fiquei observando. Um dos meninos, o mais magrinho de cabelos ondulados, vinha da cozinha, parecia um gato, carregava um pires cheio de leite com fibras, pelas bordas. Fazia o trajeto cozinha – quarto em total perigo, eu já enxergava o leite entornando, quando atinei em oferecer-me para ajudá-lo e ele..ufa!!! aceitou, o que me trouxe um alívio muito grande. Nisso, surge vindo de não sei onde um outro menino e me puxa pelo braço dizendo:


   -Quer ver tia, quer ver tia, quer ver tia? – trancou o disco, enquanto ele virava uma cambota, o leite escorreu para o chão, com fibras e tudo...meleca


  - Tu viu tia esse é o meu mortal!!!Quer ver outro?Quer ?– insistia o responsável pelo acidente.


- Mais tarde, tá bom? – respondi com toda calma que pude, mas louca para esganá-lo.


  A mãe surgiu na porta e riu, disse: só um minuto, antes que ela fale...vamos reservar esse  espaço para que você possa pensar e optar:


   Alternativa a – Deu uma bronca no menino.


   Alternativa b- Ralhou com o menino e correu para limpar o chão.


  Alternativa c – Gritou, ai meu tapete persa!!


  Nenhuma alternativa é a correta, ela disse:


  - Marquinhos vai tirar esse tatu do nariz, a moça vai ficar com nojo, hem?


  O leite ficou ali, pedi um pano que não veio. Resignada e indignada e nada! Porque não vai resolver mesmo, fui sentar na pequena área do sofá que havia reservado e olhar um pouco de tv,pensei de repente pego um pedaço da novela, quando pela porta vi se repetir a cena, um replay ao vivo e a cores do menino com outro prato cheio de leite com chocolate e fibras, caindo pelas bordas e ele vinha...e vinha na minha direção, até sentar do meu lado.Eu sorri, indo para o canto do sofá, o máximo que pude, pensando em secreto, ah se tu é meu filho, ia ver só! Te dava umas chineladas e... Ele disse com voz de narrador de fórmula um:


  - Ooooi, olha só tia, quer ver tia que eu tomo tudo num gole só.


  Eu disse:


  - Nããão precisaaa... – arrastei, enquanto o leite fazia um bigode e barba no guri e a outra metade escorria marrom na camiseta branca.


  Achei que era o suficiente para mim, melhor ir a pé para casa com chuva e tudo, foi quando a Regininha, aquela traidora que me conversou dizendo que precisava da minha opinião para escolher umas roupinhas, aparece carregada de compras e reclamando como sempre, da inflação, do preço da gasolina, que a coisa não tá fácil. Aahhh, ora me poupe!!! Já é muito para um só dia, só podia ser sexta-feira 13 mesmo!! Mas ainda tinha o churrasco...








A VIAGEM

                                                       Patrícia Ferreira da Silva




Numa noite de 1973 chegávamos a Rio Grande, num fusquinha atopetado de coisas. Eu, papai, mamãe e minhas duas irmãs.


A despedida tinha sido ao mesmo tempo dolorosa e emocionante desde aquela época eu já gostava de uma boa aventura. A viagem foi longa e incômoda, mal podíamos nos mexer, pois o banco traseiro, onde estávamos sentadas estava lotado, com a televisão, sacos de roupas, acolchoados, travesseiros e, no meu colo, como se não bastasse: bacia, bule, chaleira e duas canecas.


A Letícia na outra extremidade, de vestido listrado de vermelho e branco, meia calça de renda e correntinha no pescoço que era puro talco, se perdia no meio de cobertas, feito um gato de catálogo.


E assim o caminho era feito em silêncio, um silêncio cheio de expectativas e saudades, do vovô, vovó, Carlinhos e toda a família e amigos que tinham ficado pra trás. Nenhum de nós sabia ao certo o que nos reservava aquela nova cidade, tínhamos morado a vida toda nos fundos da casa dos meus avós, tão protegidos e felizes. Agora eu via com olhos de menina de oito anos o que era a verdadeira felicidade.


Meu pai parou numa lancheria para comermos pastel com refrigerante. Eu e Letícia escolhemos Fanta Uva, só pra ficarmos de bigode roxo e rirmos à toa uma das outras. A medida que a estrada ia ficando pra trás, meu pai ia falando da cidade onde íamos morar, tentando nos convencer de que era algo próximo ao paraíso. Até o momento a única coisa que me agradava era saber que nos fundos da casa me esperava um grande pé de goiabas. Outro forte argumento era o de que conheceríamos o mar e aos fins de semana poderíamos passar quanto tempo quiséssemos na praia do cassino, nome e lugar que traziam a combinação perfeita para a nossa família, praia para minha mãe que adorava o mar e Cassino para meu pai, um jogador inveterado.


Era madrugada quando entramos na cidade, mas o céu se mantinha cheio de estrelas que pipocavam luz no lugar, que parecia se localizar em um mundo a parte do nosso, completamente diferente de tudo o que eu já tinha visto na vida. A presença dos meus pais não era suficiente para anular aquele frio na barriga frente aqueles prédios enormes, letra luminosas por toda a parte. Desenhos de pessoas sorrindo, homens de bota e chapéu, uma loira imensa esticada feito um peixe chamava-se Ipirella e desfilava diante dos meus olhos, na tela do vidro traseiro. Letícia dormia, parecia um anjo indefeso e eu com tanto sono que tudo parecia um tanto irreal.


Em seguida pegamos uma estrada próxima a praia e o cheirinho de maresia invadiu o carro. Dormi, só acordando quando minha mãe sacudiu o meu braço, me chamando para a rua, só aí percebi que o carro não estava mais em movimento. Quando olhei pela janela o que vi foi a coisa mais sensacional que já tinha visto até então. Fiquei assim, sem falar, a voz mesmo que eu quisesse não saía. Era o mar, comprido e brilhante, no fundo o monstro sol enorme, botando medo nas últimas estrelas do céu. Enquanto eu sonhava os outros já estavam lá, correndo na areia. Meus pais na beira da água abraçados olhavam aquele espetáculo lindo. Ao longe uma plataforma guardava vários barcos, os pequenos se preparavam para ir mar a dentro em busca de pesca. Outros maiores tinham até janelas, pareciam casas flutuantes. E fiquei assim, num devaneio, balançando com a gaivota pintada na vela daquele barco e nem notei que os pequenos já tinham se ido, ganhavam o alto mar e minha família esperava paciente ao longe, escorada no Herby, nosso fusquinha branco.


Mais uma meia hora rodando e chegamos a uma vila com as casas todas iguais, separadas em grupos de duas, geminadas. A nossa era verde, ligada a uma cor de rosa, onde morava uma senhora que nos atendeu com jeito de quem já nos conhece há muito tempo. Falava diferente, coisa mais esquisita.


-Como forram de viagem seu Dinarro, pensei que família de senhor nom chegava mais. – era desse jeito.


Dona Lagarta nos ofereceu bolinhos deliciosos, bem redondinhos e com açúcar em cima. Na verdade o nome da pobre era Hidelgarta, mas custamos a aprender e acabou ficando Dona Lagarta, a custa de alguns beliscões da minha mãe.


Mais tarde quando o pai trouxe a chave da casa, estávamos todos no pátio da vizinha, de onde podíamos enxergar os fundos da nossa casa, mamãe por cima do muro e nós, pelos intervalos dos tijolos. Era um pátio pequeno, cheio de plantas, entre elas, a prometida goiabeira, que frondosa estendia sua sombra larga da porta dos fundos até a metade do quintal. E lembrei de outra goiabeira, uma que eu mesma havia plantado lá longe, na minha outra casa. E me bateu saudade, uma vontade de chorar. Chorar foi o que fiz todas as noites por muito tempo, quando todos estavam dormindo, não queria causar mais problemas. Sentia uma dor tão forte no coração, “tum” apertado, parecia doença, mas coração não dói. E eu não ia morrer dizia minha mãe, era só a saudade.


Se a noite eu chorava, durante o dia me aventurava a conhecer a cidade, seus supermercados, suas ruas largas e asfaltadas, seus caminhos com calçadas, onde transitávamos a procura do seu Dinaro, que na certa tinha descoberto uma nova carpeta.


Era período de férias e eles se desdobravam para arrumar vagas em um escola, para mim e a Letícia, papai preferia uma escola de freiras, mas era particular e o dinheiro não dava mesmo. Dona Rosa, minha mãe, perambulava pelas secretarias das escolas públicas e não dava ouvidos aos sonhos do marido, já estava acostumada. Por fim uma surpresa, o Dom Quixote Mor havia convencido a firma a pagar a mensalidade do Grupo Escolar Cristão Joana D’Arc, uma das melhores escolas da cidade. E não é preciso dizer que chegou em casa inçado de tanto orgulho, tirando a maior onda com a cara de desconfiada da minha mãe. Sempre com o pé atrás.


Mas não era porque a firma ia pagar a mensalidade, que a escola deixava de ser particular e todos os problemas estavam resolvidos. Tinha o uniforme, material escolar de primeira e até uma bíblia especial que era vendida na própria escola, a que tinha lá em casa não servia. Muito tarde para procurar outro colégio e para que não perdêssemos o ano, Dona Rosa resolveu arrumar dinheiro, abriu a porta da sala e começou a servir almoço para os colegas do meu pai, o que não deixou muito satisfeito. Nós éramos as garçonetes e meu pai como sempre se acostumou com a idéia e já traçava planos mirabolantes de um restaurante especializado em comidas do mar: peixes, camarões, etc. Sonhava...


Não custou nada para percebermos que em Rio Grande era tudo diferente, muito diferente. Os horizontes não tinham campo, nem estrada de chão, para frente o portão da usina, montes de ferro e latões de óleo. Para trás nada dava em lugar nenhum. Ficávamos, eu, Letícia e acho que minha mãe também, esperando a sexta-feira que tinha aquele gosto de véspera. No cardápio galinha, farofa e bolinho de arroz, feitos pra sobrar e encher a sacola que levávamos a praia no sábado bem cedinho.


Lá esquecíamos o choro noturno, o salário do pai que desaparecia todo o fim de mês, quase sempre junto com ele, as nojentas da escola, a missa forçada, os sapatos pretos, tudo ficava pra trás.


Aquela era a nossa estrada que sabíamos passava pela areia branca da praia, o mar azul e por aquele ventinho gelado que invadia a alma da gente e levava o pensamento pro outro lado do mar...Chegávamos então a Ouro Negro, no quintal da nossa velha casa, as luzes estavam acesas, vovó no fogão. Estávamos de volta.